Um trabalho de catalogação iniciado após o falecimento do artista Roberto Gallo (1957–2023) levou à redescoberta de um conjunto de obras públicas implantadas em Caraguatatuba entre 2013 e 2015 e inspiradas na cultura caiçara, na Mata Atlântica e na relação histórica da cidade com o mar.
A pesquisa é desenvolvida pela artista e cenógrafa Marina Gallo, filha do artista, que desde 2025 organiza fotografias, croquis, projetos e registros documentais produzidos ao longo de mais de quatro décadas de atuação profissional. Até o momento, cerca de 600 imagens e documentos já foram catalogados.
Durante esse processo, Marina percebeu que obras como o Monumento ao Caiçara, os painéis da Praça do MACC, a Praça do Camaroeiro, a Praça do Sol e o Farol das Nuvens não haviam sido concebidas como intervenções isoladas. Apesar de distribuídas em diferentes pontos da cidade, elas compartilham um mesmo repertório visual formado por pescadores, canoas, cardumes, aves marinhas, grafismos indígenas e elementos da paisagem litorânea.
A descoberta ganhou uma dimensão ainda maior quando surgiram registros produzidos pelo próprio Roberto Gallo durante a execução das obras. Em um desses documentos, o artista utiliza a expressão “Alma Caiçara” para se referir ao conjunto implantado em Caraguatatuba.
O termo acabou inspirando o nome do atual projeto de pesquisa e preservação.
Mais do que uma referência geográfica, a expressão remete a modos de vida, memórias, saberes tradicionais e formas de convivência construídas historicamente entre comunidades humanas, o mar, os rios e a Mata Atlântica. Em vez de explicar esse conceito por meio de textos, Roberto Gallo procurou representá-lo visualmente através de esculturas, relevos, mosaicos e espaços públicos integrados à paisagem urbana.
Ao comparar fotografias históricas, projetos originais e registros de execução com a situação atual das obras, a pesquisa identificou alterações ocorridas ao longo dos anos em alguns dos espaços. A partir dessa constatação, o trabalho passou a incluir também a documentação dessas transformações e a busca por informações históricas relacionadas aos projetos originais.
Segundo Marina Gallo, a questão vai além da preservação da obra de um artista:
“Essas intervenções estão presentes na cidade há mais de uma década. Uma criança que tinha cinco anos quando a Praça do MACC foi inaugurada hoje tem cerca de dezesseis anos. Essas imagens passaram a fazer parte da experiência cotidiana de gerações de moradores e visitantes. Elas já integram a memória visual da cidade.”
O Projeto Alma Caiçara tem como objetivo reunir documentação dispersa, registrar o estado atual das obras, ampliar o conhecimento público sobre seu significado cultural e contribuir para futuras ações de preservação e restauração compatíveis com os conceitos originais concebidos pelo artista.
A iniciativa também resultou na criação do site Projeto Alma Caiçara, que reúne fotografias, documentos históricos e informações sobre o conjunto de obras públicas implantadas em Caraguatatuba.
Mais do que discutir o passado, a pesquisa propõe uma reflexão sobre o futuro: como uma cidade pode continuar se transformando sem perder os símbolos que ajudam a construir sua memória?