Uma cidade não é feita apenas de ruas e edifícios.
Ela também é feita das histórias que as pessoas constroem nesses lugares.
Documentar e preservar esse patrimônio é garantir que essas histórias possam continuar sendo reconhecidas e transmitidas.
Da catalogação do acervo de roberto gallo ao projeto alma caiçara:
O Projeto Alma Caiçara nasceu de uma descoberta feita durante a catalogação do acervo de Roberto Alves Gallo (1957–2023).
A organização do acervo começou em 2025 e é conduzida por Marina Gallo, cenógrafa, que trabalhou ao lado do artista por oito anos.
Reunindo fotografias, croquis, projetos e documentos produzidos ao longo de quase cinquenta anos de trajetória, foram catalogados até aqui cerca de 600 registros, de um acervo estimado em mais de mil imagens.
A realização das obras públicas apresentadas neste projeto ocorreu no contexto da implementação do Plano Diretor de Caraguatatuba (Lei Complementar nº 42, de 24 de novembro de 2011), período marcado por investimentos em qualificação urbana, valorização dos espaços públicos e fortalecimento da relação entre paisagem, cultura e identidade local.
Entre 2013 e 2015, a cidade desenvolveu intervenções voltadas à reestruturação de áreas de convivência e à valorização de sua vocação litorânea. Foi nesse contexto que Roberto Gallo projetou e executou um conjunto de obras integradas ao espaço urbano, incorporando referências à cultura caiçara, à pesca artesanal, à Mata Atlântica e à relação histórica de Caraguatatuba com o mar.
Mais de uma década depois, mesmo diante das revisões urbanísticas e transformações ocorridas no município, essas obras permanecem inseridas na paisagem cotidiana da cidade, constituindo registros materiais de um período específico de construção simbólica da identidade urbana de Caraguatatuba.
A pesquisa ganhou outra dimensão com a localização de registros produzidos pelo próprio artista. Em um deles, ele usa a expressão Alma Caiçara para se referir ao conjunto implantado em Caraguatatuba. A descoberta confirmou que havia uma concepção integrada para aquelas intervenções — e deu nome a este projeto.
Mais do que referência geográfica, a expressão nomeia modos de vida, memórias, saberes e formas de convivência construídas historicamente entre as comunidades, o mar, os rios e a Mata Atlântica. Roberto Gallo não traduziu esse conceito em texto. Procurou expressá-lo em escultura, baixo-relevo, mosaico e espaço público.
Ao comparar fotografias históricas, projetos originais e registros de execução com a situação atual, a pesquisa identificou transformações ocorridas ao longo dos anos.
Algumas obras receberam camadas de pintura. Elementos que compunham os conjuntos foram removidos. Em um dos painéis há fissura contínua.
Nada disso é surpreendente, e nada disso é falha de uma cidade em particular. Em maio de 2026, a Fundacc declarou formalmente não possuir levantamento, registro ou documentação dessas obras — situação que se repete na maior parte dos municípios brasileiros. Arte pública instalada em praça, fora de museu e fora do mercado, quase nunca é documentada. Quando chega o momento de decidir sobre limpeza, manutenção ou reforma, não há registro a consultar.
Saiba mais sobre metodologia da pesquisa
Reúne a documentação dispersa. Registra o estado atual das obras. Torna público o que se sabe sobre como foram criadas e o que significam.
E produz o que hoje não existe: o material capaz de orientar futuras decisões de conservação.
Este site é parte disso. Fotografias, documentos, projetos e registros de pesquisa, acessíveis a pesquisadores, instituições e a qualquer pessoa.
O espaço urbano é dinâmico, e adaptações são legítimas. Praças mudam, usos mudam, e a cidade tem o direito de transformar seus espaços.
O que este projeto propõe não é manter tudo intacto. É que as decisões futuras possam ser tomadas com informação — sabendo o que a obra era, como foi feita e o que já foi alterado, sem que se perda a linguagem do artista que a concebeu.
Registrar não impede a transformação. Permite que ela aconteça sem apagar a linguagem de quem concebeu a obra.
Conhecimento sobre seu patrimônio público.
Documentação técnica para orientar futuras ações de conservação.
Registro das memórias da população sobre esses lugares.
Material para escolas, pesquisadores e visitantes.
Fortalecimento da identidade cultural e do sentimento de pertencimento.
Um acervo organizado para as próximas gerações.
"Essas intervenções estão na cidade há mais de uma década. Passaram a fazer parte da experiência cotidiana de gerações de moradores e visitantes. Hoje integram a memória visual de Caraguatatuba."
— Marina Gallo
Uma cidade pode continuar se transformando sem perder os símbolos que ajudam a construir sua memória. Para isso, precisa saber quais são.